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Conto: A goteira

09 set

Espantando as aranhas aqui desse humilde blog esquecido por deus (e pelo próprio dono), vou postar mais um conto que escrevi faz um tempo, mas só agora lembrei que tinha salvo aqui. Lá vai:

A Goteira

A Goteira

(Conto adaptado de lenda urbana norte-americana)

 

Mariana era acostumada a ficar sozinha em casa, só ela e Oswaldo, seu cachorro de estimação. Mas algo parecia errado.

Era uma menina que impressionava por sua personalidade forte. Devido ao trabalho do seu pai, que obrigava-o a ausentar-se de casa por um certo período, adquiriu uma independência que fazia com que ela diminuisse a necessidade de ter alguém por perto. Tinha 17 anos e era uma jovem muito bonita. Seus cabelos pretos combinavam com seus olhos expressivos e contrastavam com sua pele branca.

Seu pai, Marcos, trabalhava de motorista de ônibus em uma empresa que fazia viagens interestaduais e sempre deixava a filha sozinha por um tempo, afinal, tinha que fazer o papel de pai e mãe depois do acidente de carro que tirou a vida de sua esposa há 4 anos, deixando-o com a responsabilidade de criá-la e dar tudo o que fosse necessário à Mariana.

No começo, a menina estranhou, não conseguia dormir sem ter alguém por perto, mas Marcos não tinha com quem deixá-la, e por isso, comprou um cachorro pra fazer companhia à Mariana, que aos poucos foi se acostumando com a ideia de ter sempre Oswaldo ao seu lado nas noites solitárias.

O cachorro se apegou muito rápido à menina. Todas as noites, deitava-se embaixo da cama de Mariana. Ela dormia sempre com uma das mãos pra fora da cama, e Oswaldo, lambia a mão da garota. Ao sentir as lambidas e o hálito quente do animal, Mariana ficava confortada ao saber que não estava sozinha, e só assim conseguia dormir.

Naquela noite, porém, Oswaldo estava inquieto. Andava de um lado para o outro e parecia querer chamar a atenção de Mariana a todo custo. A menina, por sua vez, nem percebeu. Estava passando pelos canais da TV, e parou de repente em um noticiário local:

“Atenção! Ainda está foragido o assassino serial conhecido como “O açougueiro”. Usando uma faca, matou brutalmente cerca de 30 pessoas em 1 ano. Ele estava no presídio de segurança máxima desde novembro do ano passado, porém, sua fuga foi facilitada por um dos funcionários do presídio, que já se encontra detido. Cuidado ao sair à noite, ou receber pessoas em casa. Sabe-se que o fugitivo é um assassino cruel, por isso, todo cuidado é pouco.Qualquer informação que você tenha para ajudar na captura do foragido, ligue… ”

- Ah, besteira – Exclamou Mariana, trocando de canal e voltando sua atenção para o cachorro – E aí Oswaldo, já tá com sono?

Oswaldo agora encarava a janela do corredor, e farejava, como se algo estivesse errado, porém, a menina mais uma vez parecia não se interessar pelo que quer que estivesse chamando tanta atenção do cachorro.

Já eram 11 horas da noite e Mariana começou a ficar com sono. Foi até a cozinha beber um copo de leite, seguida por Oswaldo, que acompanhava sua dona, impacientemente. Mariana passou pelo corredor que ficava entre a sala e a cozinha e sentiu um vento frio. Era a brisa da noite que entrava pela janela aberta do corredor. Fechou-a e seguiu rumo a cozinha.

Ao abrir a geladeira, sentiu uma sensação estranha. Um arrepio na nuca, como se alguém estivesse a observando. Odiava sentir essa sensação, apesar de já ser algo frequente. Mas dessa vez era diferente, estava completamente em estado de alerta, mas não sabia porque. Oswaldo olhava-a sentado na porta da cozinha e Mariana podia jurar que ele estava triste, como se algo ruim fosse acontecer.

- Deve ser o sono – Pensou ela.

Bebeu seu leite, lavou o copo e guardou-o no armário. Apagou a luz da cozinha e olhou para Oswaldo, que ainda estava sentado na porta esperando por ela.

- Vamos dormir, Oswaldo? Tá tarde já né?  – Acariciou o cachorro saiu da cozinha, sendo seguida por ele.

Estava exausta. Geralmente não dormia cedo assim, mas o dia fora muito cansativo. Tivera provas na escola e trabalhos no cursinho. Odiava o cursinho, mas estava se preparando para concorrer a uma bolsa de estudos para o curso de veterinária na faculdade e esse era o único jeito de conseguir. Tinha que estudar muito

Gostava de conviver com pessoas, mas tinha muito mais jeito com animais e isso facilitou muito na hora de escolher que rumo tomar profissionalmente. Seu pai apoiava-a completamente e fazia de tudo para que sua filha não desistisse do sonho de se tornar veterinária. Em seu quarto tinha um aquário com peixes, uma gaiola com um hamster e a cama de Oswaldo, que ficava embaixo de sua cama. Sentia-se bem por ter seus animais de estimação por perto.

Oswaldo entrou no quarto e já se acomodava em sua cama enquanto Mariana ia ao banheiro escovar os dentes. Quando estava no banheiro, teve a impressão de ver, pelo reflexo do espelho, uma sombra passar pela porta. Lavou o rosto, fechou a torneira e repetiu para si mesma:

- Seu mal é sono, Mariana, tá na hora de dormir mesmo.

Deixava todas as luzes apagadas, gostava de deixar tudo escuro. Algo na escuridão da noite a confortava, sentia-se mais segura em dormir assim.

Correu os olhos pelo quarto na penumbra. Uma sensação estranha ainda a incomodava, mas tudo parecia estar na mais perfeita ordem, por isso, encostou a porta e foi direto pra cama.

Deixou a mão pendurada pra fora da cama, e ao sentir as lambidas de Oswaldo em seus dedos, não demorou a dormir.

Mariana tinha o sono muito leve, e, passado um bom tempo, algo a fez acordar. Era um barulho de algo pingando. Ping, ping, ping. Parecia uma torneira ou algo do tipo, e isso a incomodou.

- Deve ser a torneira do banheiro. Vou lá fechar senão não vou dormir nunca.

Levantou-se e foi até o banheiro. O barulho diminuira, mas ainda incomdava. Ping, ping, ping. Tonta de sono, fechou a torneira com força, cambaleou até o quarto e se jogou na cama. Deitou-se com a mão pendurada pra fora da cama e sentiu as lambidas em seus dedos. Adormeceu de novo.

Não demorou muito para acordar novamente, com o mesmo barulho de goteira. Ping, ping, ping. Tinha certeza absoluta que havia fechado a torneira do banheiro, era impossível ela ter aberto de repente. Levantou-se de novo e saiu do quarto.

Entrou no banheiro e olhou a torneira.Ficou curiosa:

- Engraçado, o barulho não é aqui. O chuveiro também tá fechado.

O barulho cessou, mas ela não voltou pro quarto. Ficou em pé na porta do banheiro por uns instantes, em silêncio, e a goteira novamente recomeçou. Mariana prestou atenção e constatou que vinha da cozinha.

Foi até lá, acendeu a luz e realmente a torneira da pia estava pingando um pouco, mas estranhou que aquele barulho tão baixo pudesse incomodar tanto. Fechou-a, apagou a luz da cozinha e voltou depressa para seu quarto. Já estava começando a perder o sono. Caiu na cama e estendeu a mão para Oswaldo. Sentiu a língua quente em sua mão e novamente adormeceu.

Não sabe ao certo por quanto tempo dormiu, mas acordou novamente. O barulho voltara.

Mariana levantou da cama, parou na porta do quarto e reparou que o que a incomodava estava relamente na cozinha. Estava brava e ao mesmo tempo curiosa. O que será que estava pingando agora?

Passou pelo corredor e sentiu uma corrente de ar passar por ela. Paralizou na hora.

- Ou eu tô ficando doida, ou eu tenho certeza que fechei essa janela aqui. Devo estar ficando doida mesmo, não é possível. Essa cursinho tá acabando comigo. – Reclamava Mariana, enquanto seguia para a cozinha.

Acendeu a luz e viu que a torneira não pingava mais, porém o barulho continuava. Franziu a testa e viu que, curiosamente, o barulho de pingos vinha de dentro do armário.

- Como não percebi antes? Acho que era o sono. O barulho vinha daqui o tempo todo, mas o que será? – Perguntou-se Mariana, e abriu a porta do armário.

A cena que viu deixou-a completamente horrorizada. Tentou gritar, mas não emitia ruído nenhum, tamanho era o pânico que tomava cada parte de seu corpo.  Dentro do armário encontrava-se Oswaldo. O animal estava completamente dilacerado, com um corte que ia do focinho até a barriga. Estava pendurado dentro do armário, enforcado em seu próprio intestino. O cheiro era forte, um misto de urina com sangue e entranhas, que fez Mariana sentir-se enjoada. O sangue escorria pelas patas do animal, pingando na base do armário. Ping, ping, ping. Mariana estava petrificada, não conseguia se mexer, e disse pra si mesma, entre soluços:

- É impossível, senti o Oswaldo lambendo minha mão agora há pouco.

Quando disse isso, ouviu passos no corredor. Virou-se e um homem gigantesco a encarava da porta da cozinha. Vestia a roupa laranja da prisão de segurança máxima e empunhava uma faca enorme na mão direita. Tinha cabelos desgrenhados, dentes amarelados e uma cicatriz pavorosa no rosto. Sorriu para Mariana entre a barba mal feita e suja, e disse, com uma voz grossa e intensa:

- Humanos também podem lamber, menina.

Um grito, e logo depois, o único barulho que se ouvia  na casa era o incessante pingar do sangue no chão do armário. Ping, ping, ping.

 

Sobre Luiz Livio

Sou um filósofo de boteco ainda principiante.
1 Comment

Publicado por em 09/09/2011 em Contos

 

Uma resposta para Conto: A goteira

  1. Fabiano (@fahvarao)

    10/01/2011 at 18:29

    Uuahuahauhauahua

     

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